O segredo do polimento automotivo: rotação, pressão e velocidade
Não é o produto. São três variáveis que você ajusta em cada etapa e em cada verniz. Eu explico como uso rotação, pressão e velocidade do corte ao refino.
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Se tem uma coisa da minha aula de polimento que eu quero que você lembre pelo resto da vida, é esta: rotação, pressão e velocidade. Independente do produto, são essas três variáveis que fazem o polimento dar certo ou dar errado.
Quando você conhece o seu produto, sabe em qual dessas três apertar e em qual aliviar. Quando não conhece, culpa o produto.
As três variáveis
Antes de entrar nas etapas, deixa eu explicar o que eu chamo de cada uma:
- Rotação é o RPM da máquina. Quando eu falo em rotação baixa, numa rotativa, é em torno de 1.000 rpm, no máximo.
- Pressão é o quanto você apoia a máquina na peça. Às vezes é só o peso da própria máquina, sem você apertar nada.
- Velocidade é a passada, a velocidade com que você movimenta a máquina pela peça.
Tem ainda uma quarta coisa que interfere na rotação: a potência da máquina. Tem politriz que você coloca em 1.800 e, quando encosta na peça, ela cai, porque não tem força. Para trabalhar com esse método, você precisa de uma máquina que segure o RPM. Isso vale tanto para rotativa quanto para roto orbital.
Corte com massa em repintura: rotação e velocidade, sem pressão
Vamos supor uma repintura, com massa de corte e boina branca. Aqui eu trabalho com rotação e velocidade, porque preciso elevar a temperatura para a massa cortar.
O que eu não faço é colocar pressão. Se você apertar demais uma repintura, ela pela. Principalmente em para-choque: o para-choque desplaca, lasca. Então eu venho namorando a peça, com a passada, sem apertar.
Massa de corte tem pouca lubrificação. Ela precisa de atrito mecânico para cortar. Por isso muito pintor antigo terminava de polir e jogava água para “reativar” a massa. Hoje a gente sabe que isso é errado: você está molhando abrasivo seco para tentar reaproveitar um produto que não tem lubrificação.
O mesmo raciocínio vale para massas como o Risco Zero, da Cadillac: rotação, velocidade e baixa pressão.
Corte com composto: rotação baixa, pressão e quase nenhuma velocidade
Com composto, a lógica muda. Eu trabalho com rotação baixa, com pressão e quase sem velocidade de passada.
Por quê? Porque o composto tem lubrificação, e eu quero aproveitar essa lubrificação para ele ter atrito com a boina e com a peça. Assim aproveito o abrasivo até o fim. Por isso, inclusive, vai bem menos produto.
Se você usar composto com RPM alto e passada rápida, ele vira pó. E aí vem aquela frase que eu já ouvi muito: “comprei, não presta”. O produto prestava. Faltou entender como ele funciona.
Com os produtos de um passo (os “one step”), que cortam e dão acabamento ao mesmo tempo, eu também não uso velocidade, porque esquentam demais. Trabalho com rotação baixa e pressão, e aperto mais ou menos conforme o resultado que preciso.
Refino e lustro: diminua tudo
No refino, uso a mesma tabela, só que mudo o objetivo. Agora eu quero extrair brilho, não cortar.
- Rotação: diminuo, porque preciso namorar a peça.
- Pressão: diminuo. Fica só o peso da máquina.
- Velocidade: passada sempre baixa. Se eu passar rápido, aqueço a peça e corro o risco de gerar holograma.
A regra é simples: quanto mais acabamento você quer, menos rotação, menos pressão e menos velocidade. Você vai diminuindo tudo até chegar ao máximo do brilho.
O que acontece quando uma variável sai do lugar
Isso não é aula só de rotativa. Na roto orbital, a lógica é a mesma.
Numa das minhas aulas, a Regina estava polindo uma Sportage. Ela cortou com boina de lã, usou rotação baixa e passada baixa, mas colocou muita pressão. E o verniz da Sportage era macio. Errou uma das três variáveis.
Resultado: o carro ficou cheio de marcas, e a limpeza da superfície não tirou. Para corrigir, peguei uma boina preta, extremamente macia, e ela trabalhou com baixa rotação, baixa pressão e baixa velocidade. Num verniz macio, qualquer variável que você aperta demais, com qualquer microssujeira ou microabrasivo na boina, marca.
Não existe regra, existe conhecimento técnico
Verniz macio pede tudo mais baixo. Verniz duro tem mais resistência mecânica, então talvez você precise de um pouquinho mais de pressão, mantendo rotação e passada baixas.
Como saber? Testando na primeira peça. E sem achar que o carro inteiro vai responder igual. A porta e o paralama podem ser repintados, e aí aquele mesmo ajuste não dá o mesmo resultado da lateral. Quem domina a técnica percebe na hora: “isso aqui é repintura, o verniz é macio, vou aliviar”.
Eu sempre começo pelo meio, nunca pelos extremos. Aperto o verniz com a mão, com o dedo, com a unha, vejo que tipo de repintura foi feita e só então decido se aumento ou diminuo pressão, rotação ou abrasividade.
Por que tanto detalhador ainda apanha no polimento
Porque coloca a responsabilidade no produto. Não estuda rotação, nem pressão, nem velocidade. Compra o produto que o influenciador indicou e usa do mesmo jeito que usava o anterior, sem testar se, com a técnica dele, aquele produto entrega o que foi prometido.
É por isso que profissionais mais velhos, como eu, acabam virando técnicos de marca. Pegando qualquer um desses produtos, a gente tira um bom resultado. Com um, demoro mais; com outro, menos. Mas eu estudo o produto antes de julgar.
Preocupe-se com o resultado, não com o processo
Se você começa sempre do mesmo jeito, vai ter sempre resultados diferentes, porque cada carro é um carro. O processo você ajusta. O resultado, não: é ele que você entrega para o cliente.
Na correção de pintura de carro usado, você pode trabalhar com níveis, 70%, 90%, conforme o pacote do seu cardápio. Mas numa repintura, o verniz é novo. Ali você tem que entregar 95%.
E isso conversa direto com quem faz reparo rápido. Depois de uma pintura fast num para-choque, é o polimento que define se o cliente vai enxergar a emenda ou não. Quem domina essas três variáveis entrega a pintura rápida com acabamento de fábrica, e cobra por isso.
O que levar desta aula
- Rotação, pressão e velocidade valem para qualquer produto, em rotativa ou roto orbital.
- Massa de corte em repintura: rotação e velocidade, sem pressão, para não pelar a peça.
- Composto: rotação baixa e pressão, quase sem passada, para aproveitar a lubrificação.
- Refino: diminua as três até chegar ao brilho máximo. Passada rápida gera holograma.
- Verniz macio pede menos de tudo. Teste na primeira peça e reavalie nas repintadas.
- Antes de culpar o produto, revise as três variáveis.
Esse é o tipo de base técnica que eu ensino no Além do Brilho, do lixamento em repintura ao polimento, para você parar de depender do produto da moda e passar a depender da sua técnica.



