Zerar peça não dá dinheiro: como eu corrijo um carro em meio turno

Prometer 70% e entregar mais vale mais que três dias tentando zerar um capô. Eu mostro a avaliação, o corte com lã, o refino e a conta que fecha.

Polimento e brilho

Prefere assistir? Esse post saiu deste vídeo do canal. Abrir no YouTube →

Essa aula de polimento é, ao mesmo tempo, uma aula de gestão e de atendimento. Porque a técnica não adianta nada se você promete o que a pintura não deixa entregar, ou se gasta três dias num carro que paga um.

Explique o serviço antes de cobrar por ele

Começo com uma história que não tem nada a ver com polimento. Um cliente meu queria instalar câmera de ré num Q3 e eu indiquei um parceiro. Depois ele me ligou reclamando: “me enfiou a faca, cobrou R$ 350”.

Aí eu expliquei o que dá trabalho: tirar a central multimídia, passar o cabo pelo teto e pelas colunas até a luz de placa, instalar uma central para converter o sinal para a multimídia original. “Eu achei que ele tinha te cobrado uns R$ 800.” O cliente mudou de ideia na hora.

O preço não estava caro. Faltou explicação técnica. Na estética é igual: quando você explica o que vai fazer e por quê, o cliente entende o valor. E é para isso que serve o cardápio de serviços: ele mostra os processos, quanto tempo o carro fica e qual resultado você vai entregar.

Avalie o que a pintura deixa você entregar

O capô desse Golf já tinha sido repintado. Tinha marca d’água, muita batida de pedra de estrada e uns fervidinhos de verniz. Olhando com técnica, eu sei que nenhum processo de correção vai melhorar mais do que 70% desse capô. Pode ser o melhor polidor do mundo: o trabalho é só no verniz, e uma batida de pedra não sai com polimento.

Então eu nem lixo. Não sei que verniz foi usado, e lixar ali seria desgaste sem retorno. Faço um polimento um pouco mais agressivo, com composto e boina de lã amarela. Não uso a branca, mais agressiva, porque não quero marcar demais um verniz em que prometi 70%.

Prometi para a cliente: 70% de melhora, brilho e proteção. Os outros 30% são batida de pedra, mancha de resina de árvore e arranhão profundo.

Por que eu não zero peça

Imagine um corte do verniz. Tem arranhão moderado, arranhão profundo, arranhão que já chega no primer ou na lata, e a marca d’água, que é o mineral da chuva que o sol “torra” na pintura.

Se eu prometo 70%, tiro o que dá com segurança. Se tento 90% ou 100%, vou atrás de arranhão que já está no fundo, e a chance de pelar é grande. Tirar risco é arriscado.

E tem mais: todo processo de corte tira verniz. Boina de lã, boina de espuma, composto superlubrificado, não importa. Pode ser uma ou duas micras, menos que um fio de cabelo, mas tira. O lema do detalhador é cuidar, proteger e manter as características originais do carro. Lixar e polir para extrair o máximo de brilho, que o cliente muitas vezes nem nota, não é cuidar dele.

Quinze dias depois de entregar o carro, o cliente está lavando na praia com esponja velha e enchendo a pintura de micro-arranhão. Nenhum polimento que você vê no meu estúdio é para zerar peça. Em todo treinamento que eu dou, falo a mesma coisa: quem fica tentando zerar peça não ganha dinheiro.

Zerar peça de carro zero, ou de carro com micro-arranhão, é fácil. Eu quero ver zerar um capô de carro 2017, repintado, batido. Mas é isso que chega no box todo dia. E a maioria dos clientes não quer peça zerada, quer brilho. No SEMA Show, em Las Vegas, vi carro com micro-arranhão e holograma. O americano quer brilho. No Brasil, tem gente passando cinco dias polindo para cobrar R$ 1.000 e discutindo em grupo de WhatsApp quem pole melhor.

A conta que não fecha

“Quanto tempo para corrigir à perfeição?” Umas 3 horas só no capô. E o carro inteiro em quatro dias, por R$ 2.000, R$ 2.500.

Eu tenho ambiente fechado, ar-condicionado ligado o dia todo, três colaboradores e 400 m². Com quatro dias de box por R$ 2.500, eu fecho as portas. Mesmo trabalhando sozinho, o caminho é entregar o que o carro deixa entregar, compactar processo e surpreender o cliente.

Na prática: corte com lã em 1 minuto por quadrado

Para ninguém dizer que escolhi o produto a dedo, deixei vários de marcas diferentes na mesa e pedi para o Bruno escolher. Saiu um composto de corte de outra marca.

  • Boina de lã amarela de fio penteado, quatro gotas de produto no quadrado.
  • Baixa rotação, com pressão e pouca passada, porque é um composto com lubrificação.
  • Do meio-dia às 4 horas na boina, como eu sempre ensino.

Se eu subo a rotação, aqueço a peça, o produto seca e gera pó. Boina nova solta fio, é normal; com boina usada isso some.

Um minuto depois, limpei e passei Clean para não ter nada mascarando. O quadrado já estava corrigido. Fazendo a conta para o capô inteiro: uns 10 minutos de corte.

Refino ainda na rotativa, com espuma chapada

Depois da lã, preciso tirar o holograma que ela deixa. Fiz ainda na rotativa, com boina de espuma e um polidor mais lubrificado:

  • Rotação baixa e pressão, sem velocidade de passada, porque agora é acabamento.
  • Boina de espuma sempre chapada. De lado, ela também gera holograma.
  • No final, levanto um pouco o peso da máquina para refinar ainda mais.

Mais 10 minutos no capô. Limpei com Clean: sem holograma, e o brilho que aparece é do verniz, sem cera, selante ou vitrificador.

Corrigir o carro todo em meio turno é isso: 20 minutos num capô, que é a maior peça. Paralama e porta, mais 40. A outra lateral e a tampa, mais 40. Com aberturas de porta e acabamento, umas 3 horas.

Rotativa ou roto orbital?

Repeti o mesmo quadrado com roto orbital, boina de lã intermediária e um composto de corte forte. No nível de corte, ficou praticamente igual. Mas eu prefiro cortar com rotativa, e explico por quê.

A rotativa gira só no próprio eixo. O abrasivo e a lubrificação ficam concentrados ali, com mais atrito e temperatura: mais poder de corte. A roto orbital gira e faz uma segunda órbita. Essa órbita varia por máquina, e quanto maior o deslocamento, maior o poder de corte:

  • 12 mm, considerada mais “lixadeira”.
  • 15 mm, a que eu uso para refino e lustro.
  • 21 mm, que muitos usam para cortar.

Como a roto orbital trabalha 100% chapada, ela é mais fácil de ensinar. Em dois dias qualquer um aprende uma receita de bolo. Mas, quando chega um carro muito judiado, corrigir só com ela leva três, quatro dias. E nas curvas e frisos, chapada, ela dá cabeçada, mesmo com boina de espuma. A rotativa, eu trabalho de lado ou do meio-dia às 4 horas, sem atrito no vinco.

Por isso o meu processo é:

  • Correção: rotativa no corte (vai gerar holograma, ela é feita para isso) e roto orbital no acabamento.
  • Só ativação de brilho, one step: roto orbital direto. Mais produtividade, sem risco de holograma ou marca de boina.

Quem diz que polir com rotativa é coisa de dinossauro está errado. Quem diz que só serve rotativa também. Domine as duas para saber quando usar cada uma.

O produto não te salva

Muita gente compra o composto que o influenciador ganhou e divulgou, usa do jeito que usava o anterior, em alta rotação e com pouca pressão, e conclui que o produto não presta. Composto com lubrificação não aceita alta rotação. Massa de repintura, que tem pouca lubrificação, precisa de atrito e rotação. Usar a técnica de um no outro dá errado.

Anos atrás, uma massa de polir muito lubrificada foi rejeitada por muitos polidores: eles colocavam demais, passavam em alta rotação, a lubrificação empastava e diziam que a massa era ruim. Eu peguei uma lata, trabalhei até tirar toda a lubrificação e espelhei um capô. Deu mais trabalho por passada, mas resolvia numa vez só.

Em todo treinamento que eu dou, o cara abre o armário e já usou de tudo. Eu digo sempre: nenhum produto vai te salvar sem conhecimento técnico. Primeiro eu entendo como ele trabalha, depois ajusto rotação, pressão e velocidade para o produto novo. Expliquei essas três variáveis no post sobre o segredo do polimento automotivo.

Experiência completa é o que dá lucro

Enquanto eu gravava essa aula, a equipe fazia higienização interna e outra pessoa lixava e polia os para-choques do mesmo carro. Muita estética cobra R$ 1.500 para pintar três peças. O meu ticket é três, quatro vezes maior porque, no mesmo carro, a gente agrega pintura rápida, polimento, higienização e proteção.

Lixar, polir, passar cera e higienizar, sozinhos, não fecham a conta. O que fecha é transformar a visita do cliente numa experiência completa. É isso que eu ensino no Studio Padrão Americano, e a parte de reparo rápido está no Repara Fast.

O que levar desta aula

  • Avalie a pintura antes de prometer. Repintura batida aceita 70%, não 100%.
  • Todo corte tira verniz. Zerar peça custa verniz do cliente e o seu lucro.
  • Use o cardápio para dizer quantos dias o carro fica e quanto vai melhorar, e entregue um pouco mais.
  • Corte com lã em baixa rotação, refino com espuma chapada: cerca de 20 minutos num capô.
  • Rotativa para corrigir, roto orbital para acabamento e ativação de brilho.
  • Antes de culpar o produto, ajuste a técnica a ele.

O passo a passo de lixamento em repintura e polimento está no Além do Brilho.

Leia também