Como tirar escorrido de verniz sem pelar a peça (e por que eu prefiro arriscar a última demão molhada)
A técnica da massinha como controle de lixamento, taco duro e lixa molhada para tirar escorrido de verniz. E os cuidados na montagem depois da pintura.
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Todo pintor já escorreu verniz. Eu já escorri a lateral inteira de um carro, num inverno, com pressa, sem maturidade. Larguei a pistola, fui embora e no dia seguinte refiz tudo. Quem diz na internet que nunca escorre geralmente entrega aquela pintura cascuda e empoeirada, com medo de escorrer.
Nesse dia do Repara Fast presencial, um para-choque que pintamos com os alunos amanheceu com um pequeno escorrido. Foi a aula perfeita.
Por que o verniz escorre
O escorrido costuma aparecer nos cantos, quando a sobreposição é grande demais e os sólidos se concentram. Nesse caso, escorreu porque eu dei a quarta demão junto com os alunos, sem esperar. Se eu tivesse parado na terceira, ou esperado mais, não teria acontecido.
A pressa é inimiga da perfeição. Se você não espera o tempo entre as demãos, a pintura cobra lá na frente.
A técnica: massinha como controle de lixamento
O jeito mais fácil de tirar um escorrido, principalmente para quem tem pouca experiência:
- Passe uma massinha de correção (tipo filler) em cima do escorrido. Ela preenche os dois lados da gota.
- Espere secar bem. Deixe no sol e vá fazer outra coisa. Verniz recente pode estar seco por cima e “emborrachado” por baixo; se você lixar assim, arranca a cabeça do escorrido ou desplaca.
- Lixe com taco duro e lixa 1200, ou até uma 800 velha, sempre molhado. Nunca a seco: você precisa diminuir o atrito.
- Não aperte. Vá “namorando” o escorrido. A massa nos dois lados funciona como controle: a lixa vai tirando só a cabeça da gota e a massa protege o resto da peça para você não pelar.
Por que taco duro? O taco macio, como o EVA de chinelo, acompanha o formato do escorrido e não tira ele completamente. O taco rígido corta a cabeça.
Se ainda ficou marcado, repita: massinha, secar, taco duro. A regra é menos é mais. Se você for drástico demais, pela a peça. Aí vai ter que fazer um retoque com fita virada.
Escorrido grande, daqueles que escorrem de verdade? Passe a massa, coloque no sol e esqueça até o dia seguinte.
Dá para raspar com lâmina? Dá, e já fiz. Mas o verniz tem que estar muito seco, senão a lâmina arranca a cabeça. Para quem está aprendendo, acho arriscado.
Depois do escorrido: refine o lixamento
Tirado o escorrido, eu sigo com 1500 (ainda no taco duro, sempre no mesmo sentido) e depois 2000, com a parte mais macia do taco. Agora não é mais para corrigir, é para refinar e facilitar o polimento.
Nunca lixe em círculo: é o mesmo movimento da máquina, e as marcas ficam mais difíceis de tirar.
E lembre: tudo o que você lixa, você vai ter que polir. Por isso, no polimento, não se “abre” o lixamento como na preparação.
O polimento tem que combinar com o lixamento
- Lixou só até 1200? Vai ter que polir com massa de polir e boina de lã branca, mais agressiva.
- Lixou até 1500, 2000 ou 3000? Não faz sentido voltar para a boina branca, que marca mais que o seu lixamento. Use boina amarela, composto ou espuma.
Detalhei essa lógica no post sobre lixamento de repintura.
Quantas demãos de verniz
Para quem está começando, na dúvida, três demãos:
- Uma empoeirada, que ajuda a ancorar e evita olho de peixe numa estética.
- Uma mais carregada.
- Uma fechando o filme.
Em último caso, uma quarta, porque com quatro demãos você tem material para lixar e polir. O que não pode é dar quatro demãos uma em cima da outra, sem esperar: elas compactam, o diluente não evapora e o verniz murcha. Espere uns 10 minutos entre uma e outra.
Prefiro mil vezes tirar um mini escorrido em 5 minutos a ficar 2 horas lixando uma peça inteira empoeirada. Verniz empoeirado não forma filme, fica craquelado, perde sólidos no lixamento e obriga você a apertar a máquina perto dos frisos, onde a textura fica diferente. O risco é muito maior.
Uma dica que muitos pintores usam: se você vê que um capô pintado em pé vai escorrer, deite ele no cavalete. O verniz alastra.
A pressa estraga mais que o escorrido
Nesse mesmo dia, na correria da montagem, os alunos danificaram o para-choque recém-pintado. O verniz parecia seco, mas por baixo ainda estava macio: dava para marcar com o dedão. Toda aquela correria gerou um retoque que não existia.
Alguns cuidados que evitam isso:
- Peça recém-pintada vai para o sol antes de montar. Se precisa entregar no dia, lave o carro antes, monte por último.
- Tire a fita de isolamento cortando o verniz, dobrando a fita para trás, onde ela tem camada de verniz. A fita virada pode puxar sem medo.
- Teste as lâmpadas antes de fixar a sinaleira: pisca, ré, freio. Melhor que desmontar tudo de novo, e o cliente não vai aceitar ouvir que “já estava assim”.
- Ao desmontar sinaleira ou capa de retrovisor, comece pela parte que não aparece. Se quebrar um grampo, ninguém vê. Não sabe como desmonta? Pesquise antes.
- Não force retrovisor elétrico para recolher: a engrenagem por dentro quebra os dentes.
Massinha só para pequenos reparos
Essa massinha de correção é feita para pequenos reparos e, com o tempo, pode murchar. Para uma batida de pedra no meio da porta, eu prefiro massa poliéster, que não murcha.
E não confunda o reparo fast com micropintura. Caneta de retoque e aerógrafo só cobrem o arranhão com a cor do carro. Se o cliente aceita isso, tudo certo. O problema é vender como solução perfeita. Expliquei a diferença no post sobre pintura fast em 38 minutos.
O que levar desta aula
- Massinha em cima do escorrido funciona como controle de lixamento.
- Espere secar bem. Lixe molhado, com taco duro, sem apertar.
- Depois, refine com 1500 e 2000, sempre no mesmo sentido.
- Três demãos com intervalo, a última mais molhada, valem mais que verniz empoeirado.
- Monte com calma: verniz novo marca fácil.



