Junior Talks 003: Harry Trein e a venda de carro com a verdade na mesa

Com o Harry, vendedor de carros há mais de 20 anos: indicar com opções, falar dos retoques antes do cliente achar e por que serviço barato sai caro.

Preço, vendas e gestãoEventos, viagens e podcasts

Prefere assistir? Esse post saiu deste vídeo do canal. Abrir no YouTube →

O terceiro convidado do Junior Talks foi o Harry Trein, que trabalha com compra e venda de carros desde os 18 anos e hoje está numa loja tradicional de Porto Alegre, além de manter o próprio perfil de vendas. Cresceu no meio do automobilismo. A gente se conhece há quase 20 anos, e a conversa foi do negócio às histórias da zona sul.

O teu negócio é carro

O Harry chegou a tentar ser corretor de imóveis, numa época em que todo mundo enriquecia com isso. Não vendeu nada. Um amigo da família foi direto: você pode trabalhar com o que quiser, mas eu sempre vou te ligar para perguntar de carro, nunca de imóvel.

Isso é notoriedade: o seu nome fica ligado àquilo que você domina. Comigo é igual. Faz anos que tirei a mecânica pesada do estúdio, porque meus clientes, com carros automáticos e na garantia, pararam de procurar esse serviço. Ainda assim, tem quem me ligue por causa de embreagem. Eu continuo sendo referência, e por isso indico.

Indique com opções

A gente concordou numa coisa: indicar é delicado. Quando você indica um só, o cliente às vezes vai sem vontade, e se der errado, a culpa é sua. O Harry dá duas ou três opções de confiança: “olha para quem você gostar da cara e escolhe”.

E a gente brinca que prestador de serviço é como médico: você não vai ao urologista para tratar o coração. Uma “oficina que faz tudo” nem sempre é a melhor escolha. Ter um círculo de especialistas que se indicam é melhor para o cliente.

Falar do retoque antes do cliente achar

O que eu mais admiro no trabalho dele: honestidade. Na dúvida sobre a quilometragem, liga para o ex-dono. Se o carro tem retoque, ele fala antes.

Um exemplo que ele contou: uma cliente queria um carro compacto. Ele tinha um ótimo, mas avisou que o teto e o capô eram repintados, porque o gato da antiga dona dormia em cima e arranhava. A cliente desistiu e comprou outro, em outro lugar, que estava todo repintado e ninguém falou.

A verdade às vezes dói, mas a gente explicou no vídeo: repintura não é defeito. Carro arranhado, retocado sem massa, sem solda, é normal. Defeito é esconder.

Até o zero quilômetro tem retoque

Carro novo passa por cegonha, pátio, lavador e manobra sem proteção nenhuma. É comum chegar ao cliente com peça retocada, e na concessionária ninguém olha com lupa. Já peguei carro com 30 km com porta repintada: o medidor de espessura e a sujeira no verniz não mentem.

E tem mais: para carros ficarem leves, a lataria ficou mais fina, e as montadoras usam mais vincos e textura para disfarçar ondulações. Por isso, às vezes, eu recupero um capô e deixo uma ou outra micro sujeira que é característica original do carro. Alisar demais tira a “cara” de fábrica. Leia também nanoproteção: carro zero x carro usado.

Serviço barato sai caro

A qualidade quase sempre está ligada ao preço. O Harry contou de um carro da loja que mandaram para um funileiro perto: quando viram por dentro, a lateral estava furada de parafusos de puxar a chapa, e ninguém tinha tirado. Massa e tinta por cima. Mandaram fazer de novo em outro lugar.

Aqui no estúdio, recebi um para-choque com massa sobre massa. Para-choque é peça flexível: mesmo com massa própria para plástico, excesso de produto desplaca na primeira batidinha. Meu preparador tirou mais material do que colocou.

Mostre a cara, e seja igual ao Instagram

O Harry começou postando como classificado de jornal: foto, ano, preço. Percebeu que as pessoas querem interagir, ver o dia a dia. Os primeiros vídeos foram travados; hoje sai natural. É uma escada, como pintura: compare o primeiro carro que você pintou com o último.

E quem vem nos conhecer pessoalmente diz a mesma coisa: somos iguais ao Instagram. Não sou ator. Isso gera confiança.

Autorização por escrito

Uma história de bancada: um carro elétrico de cliente ficou parado no estúdio e a bateria descarregou. Eu ainda não tinha a tomada aterrada nem o carregador próprio. O dono me orientou a tirar a bateria auxiliar para carregar. Fiz, mas só depois de ter a autorização por escrito no WhatsApp. Se algo der errado depois, está registrado.

O pós-venda é o diferencial

Pode ter o melhor Instagram do mundo: se o serviço não é bem feito, o boca a boca não anda. Já refiz serviço, já tive cliente que não gostou. Faz parte. O que segura 20 anos de clientela é verdade e pós-venda.

O que levar deste vídeo

  • Seu nome fica ligado ao que você domina: cuide dessa notoriedade.
  • Indique com duas ou três opções de confiança.
  • Fale do retoque antes do cliente descobrir.
  • Repintura bem feita não é defeito; esconder é.
  • Massa sobre massa em para-choque desplaca: preço baixo cobra depois.
  • Combine tudo por escrito.

Leia também