R$ 34 mil em 48 peças: como o Tales encaixou a pintura fast num estúdio pequeno
O Tales tem um estúdio em Canoas, achava que precisava de um espaço maior para pintar e hoje cobra R$ 900 por peça. Fui visitar e ver como ele fez.
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Eu fui visitar o Tales no estúdio dele, em Canoas, aqui do lado de Porto Alegre. Ele tem estética há seis anos, dá treinamentos e tem os cursos dele. E fez o Repara Fast comigo há uns três anos. O certificado está na parede.
Antes de ligar a câmera, ele puxou o relatório do sistema:
Do início do ano até ontem, deu R$ 34.400 de pintura. Deu 48 peças. — Tales
Isso só de pintura, sem contar o resto do que cada um desses carros fez no estúdio.
O espaço não era o problema
O que travava o Tales era a ideia de que, para pintar, ele precisava de um espaço maior. O estúdio dele não é grande: quando tem um carro sendo vitrificado, não dá para lavar outro do lado, senão a névoa de água molha tudo.
Eu tinha essa barreira e eu quebrei, porque o meu espaço não é tão grande e eu julgava isso como um fator decisivo. Mas não: tu pode botar umas lonas, tu baixa, tu isola o teu espaço. — Tales
No começo, ele fechava a área com plástico de isolamento. Depois a Fran, que trabalha com ele, sugeriu lonas de subir e descer. Às vezes a gente está tão dentro do negócio que não enxerga a solução simples.
E a pistola? A primeira custou menos de R$ 400, e ele usava a mesma para tinta e verniz. Ainda usa para uma das cores. Hoje tem seis: uma para primer, uma para verniz, as de tinta separadas. É o que eu sempre digo: começa com uma, depois vem a segunda, a terceira. Igual máquina de polir. Uma vai pagando a outra.
Começou devagar, mas começou
O Tales é honesto: depois do curso, ele voltou e não praticou. Levou uns seis meses para começar. Quem destravou foi um cliente:
Ele disse: “Eu quero que tu faça, porque tu fez o curso. Se ficar melhor do que está, para mim está ótimo.” — Tales
Foi um Peugeot, com sete peças pintadas de primeira.
A Fran resumiu bem a diferença entre os dois. Ela precisa de tudo organizado para começar. O Tales começa sem ter tudo: “eu tenho o curso, o resto eu dou um jeito”. E foi assim que a demanda cresceu, e só depois apareceram as necessidades de estrutura: compressor maior, espaço para mais boxes. Um cliente gostou, indicou outro, que indicou outro.
Do terceirizado ao serviço próprio
Teve uma época em que o Tales vendia muito polimento e vitrificação. Mas o cliente perguntava se ele pintava para-choque. Quando a resposta era não, o cliente ia pintar em outro lugar e prometia voltar para polir.
Voltava? Não voltava mais.
Ele passou a terceirizar a pintura. Mas, como ele mesmo diz, o terceirizado nem sempre entrega o que você precisa para cobrar o preço que você precisa. Quando passou a pintar ele mesmo, a margem subiu e o preço também:
Comecei cobrando um valor médio de mercado, R$ 500 a peça. Agora eu já subi, porque eu sei o trabalho que dá. — Tales
Hoje ele cobra R$ 900 por peça.
A pintura salva a agenda
Eu e o Tales temos o mesmo problema: agenda lotada numa semana e furada na outra. Chove uma semana, quinze dias, e ninguém quer fazer detalhamento. O que salva é o para-choque arranhado. A pintura deixou de ser um serviço “supérfluo”: o cliente raspou o carro e precisa resolver.
E quase nenhum carro que entra para pintar sai só pintado. Faz higienização, lavagem detalhada, polimento e vitrificação. É o mesmo cliente comprando mais.
A conta do terceirizado
Essa conversa rendeu uma conta que muita gente não faz. Pergunta para mim quanto custa pintar uma roda e eu digo R$ 1.600. O cliente compara com o pintor de rodas que cobra R$ 800 e acha que eu ganho 100%.
Não ganho. Dos R$ 1.600 parcelados em cinco vezes no cartão, já saem uns R$ 100 de taxa. Depois vem a nota fiscal, uns 8% em cima. E o pintor terceirizado cobra os R$ 800 dele no Pix. No fim, sobram para mim uns R$ 400, com o carro parado três dias no elevador.
Por isso eu cobro R$ 600 para pintar as pinças, ou de R$ 900 a R$ 1.000 as quatro. Quem cobra R$ 200 está, sem perceber, pagando para trabalhar.
O Tales trabalha com um cliente mais exigente, que comprou o carro zero e já quer proteger. Para esse cliente, o tempo vale mais: é melhor pagar um só e receber tudo pronto do que parar o carro em três lugares diferentes. Quando precisa, ele chama um martelinho de ouro para atender ali mesmo.
Pintura até fora do estúdio
Outra sacada dele: pintar na estrutura de outro estúdio. O Tales já fez várias pinturas na estética de um aluno dele, que vende o serviço. Leva uma caixa organizadora com tudo, segue um checklist e pinta no cantinho do outro.
Teve um sábado em que um funcionário de uma estética raspou o carro de um cliente na manobra, e o carro tinha que ser entregue na segunda. Cantinho de para-choque, R$ 800, resolvido no fim de semana.
O que ainda dá trabalho
Pintar sem cabine tem os seus desafios: cai uma sujeirinha, à noite aparece mosquito. O compressor de 100 litros dá conta tranquilo de um reparo, mas quando o Tales já está pintando três peças, a pressão cai no meio da lateral e ele tem que esperar o compressor recuperar.
É mais fácil eu ter o serviço, vender e lutar contra esses pequenos probleminhas do que não agregar e deixar R$ 34 mil na mesa em meio ano. — Tales
São uns R$ 3.500 a mais por mês, só de pintura. Pense em quantos carros alguém que está começando teria que lavar, a R$ 80 ou R$ 90, para fazer isso.
Tem espaço para todo mundo
O Tales também dá curso, e tem gente que acha estranho eu visitar um “concorrente”. Não existe isso. Se todos nós tentássemos atender 10% dos carros de Porto Alegre, não daríamos conta. Tem trabalho para todo mundo, e ninguém precisa pisar em ninguém.
O que fica dessa visita
- Espaço pequeno não impede a pintura fast. Lona e organização resolvem.
- Comece com uma pistola. As próximas vêm com o serviço.
- Pintar você mesmo, em vez de terceirizar, deixa a margem e o preço com você.
- A pintura segura a agenda nas semanas de chuva.
- Faça a conta do terceirizado antes de achar que está ganhando muito.
- O primeiro serviço é o mais difícil. Depois, um cliente indica o outro.



