Capô liso demais denuncia a repintura: como lixar mantendo a textura original

Por que tirar toda a sujeira pode estragar uma repintura, como escolher a lixa pelo estado do verniz e por que 1200 de uma marca não é 1200 de outra.

Pintura e reparo rápido

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Tem um jeito simples de descobrir que um carro foi repintado, sem medidor de espessura nem vistoria cautelar: o carro inteiro tem aquela textura de casca de laranja, e o capô está liso como um espelho. Quem lixou e poliu esse capô fez um trabalho “perfeito” e, sem querer, entregou que o carro passou pela funilaria.

Nesta aula presencial, com alunos lixando capô, teto e lateral de um HB20 e de um C3, eu mostro como pensar o lixamento para que a repintura continue com a cara do resto do carro.

Avalie a textura original antes de lixar

Cada montadora tem uma textura. A do HB20 tem uma casca de laranja bem marcada. Em outras marcas, a pintura original é bem mais lisa. O objetivo do lixamento de repintura não é deixar a peça o mais lisa possível. É tirar a sujeira e deixar a peça com a mesma textura do resto do carro.

Se você cata todas as microssujeiras e alisa o capô, ele fica diferente do teto, das portas e do para-lama. E o cliente que for vender o carro vai ouvir que aquele capô foi pintado.

E se sobrar uma sujeirinha saliente quando você olhar com a lâmpada? Mostre ao cliente que o carro original também tem microssujeiras. O que importa é a peça ter a mesma textura do resto. É por isso que eu digo que o polidor tem que ser amigo do pintor: quem pinta sabendo que vai cair sujeira deixa a peça um pouco mais crespa, para sobrar margem de lixar sem alisar demais. Falei disso no post sobre lixamento de repintura.

Taco duro para achar a cabeça da sujeira

Para catar sujeira, você precisa de um apoio firme o bastante para “pegar” a cabeça dela:

  • Taco duro para tirar só a cabecinha da microssujeira.
  • EVA mole demais passa por cima da sujeira e não tira nada.
  • Meu preferido para lixar a peça é um pedaço de chinelo velho: não é mole a ponto de passar por cima nem duro a ponto de marcar demais. É gosto pessoal; tem profissional que prefere o taco de EVA comprado.

Lixe molhado, com um pouco de detergente na água para a lixa escorregar. Água branca escorrendo é sinal de que você já está tirando a camada de cima do verniz.

A lixa certa depende do verniz e da peça

Não existe uma sequência fixa. Eu tenho quatro lixas e uso conforme o estado da peça:

  • Peça muito cascuda ou com muita sujeira: começa mais grossa, numa passada leve só para “quebrar” o brilho e mostrar as cabeças de sujeira.
  • Textura boa, sujeira localizada: começa na 1500 na peça toda, cata a sujeira com um pedaço de lixa no taco e segue para 2000.
  • Repintura muito boa: pode começar direto na 2000. Demora mais, mas a peça fica mais pronta.

Sempre cruze o sentido de uma lixa para a outra. Assim, quando começar a polir, você vê qual marca já saiu.

O verniz também muda tudo. Alguns cortam fácil; outros são tão duros que parece que a lixa nem arranhou. Por isso, não existe verdade absoluta: você ajusta a lixa ao verniz que tem na sua frente.

1200 de uma marca não é 1200 de outra

Esse é o ponto que mais gera confusão. Cada fabricante tem a sua escala de grão. Algumas lixas pretas usadas na preparação para pintura são bem mais agressivas que a mesma numeração de outra marca. Se você usar aquela lixa preta de preparação para lixar verniz antes do polimento, vai machucar a peça. É um erro comum de quem aprendeu com funileiro “raiz”: dá a primeira passada com lixa agressiva, tira verniz demais, baixa os sólidos e depois o brilho cai.

O conselho prático:

  • Escolha a lixa que você encontra na sua região e domine ela. Entenda quanto apertar, quanto lubrificar, qual o resultado.
  • Se a sua lixa é mais agressiva, suba a numeração.
  • É melhor comprar uma caixa de lixa que você domina do que um composto novo achando que ele vai salvar o polimento.

O lixamento é o primeiro passo do polimento

Lixar já é cortar, só que com lixa. Então pense o lixamento de acordo com quem vai polir:

  • Mais seguro na politriz? Pare na 1500 e corte com boina de lã branca e massa de repintura.
  • Mais caprichoso no lixamento? Vá até a 3000 e corte com a boina de lã amarela, que marca menos. A Regina faz assim: o lixamento dela é um veludo e ela quase nunca precisa da boina branca. Expliquei a diferença entre as boinas no post sobre polimento no Brasil e no Japão.

Cada etapa facilita a próxima. Lixamento apressado deixa o polimento demorado. Corte apressado exige mais refino. E não adianta pular para o lustro achando que ele vai salvar o corte: o próximo processo nunca salva o anterior.

Polir em partes, não a peça toda de uma vez

Na hora de polir, não espalhe produto no capô inteiro de uma vez. Quando você passa um limpador de superfície no fim, aparecem áreas mal polidas espalhadas, porque você não se concentrou em nenhuma.

  • Divida a peça. Comece pelo friso, com a pressão certa para a borda.
  • Depois o meio, onde a pressão é outra.
  • Terminou a peça toda no corte? Aí troca de etapa.

Polir tudo de uma vez e passar cera é o que fazia o polimento “brilhar” na entrega e sumir depois de três lavagens. Mostrei o teste que revela isso no post sobre polimento de repintura.

Na dúvida, menos é mais

Se você passou do ponto, não tem como voltar. Lixou fundo demais e a peça ficou lisa? Ou você entrega o capô liso, diferente do resto do carro, ou pinta de novo. Abriu o verniz tentando tirar um risco? Pinta a peça.

Por isso: tirar risco é arriscado. Na dúvida, comece com uma lixa mais fina. Para riscos, no máximo três tentativas: polir, polir de novo e, na terceira, só uma passada leve. Não saiu, pare.

O que levar deste vídeo

  • Avalie a textura original do carro antes de lixar.
  • Capô liso demais num carro de casca de laranja entrega a repintura.
  • Taco duro para tirar a cabeça da sujeira; EVA mole passa por cima.
  • Escolha a lixa pelo estado do verniz e cruze o sentido entre elas.
  • Cada marca tem a sua escala de grão: domine a que você tem.
  • Pense o lixamento junto com o polimento que vem depois.
  • Pole a peça por partes, não tudo de uma vez.
  • Na dúvida, menos é mais.

O lixamento e o polimento de repintura, do jeito que eu ensino na prática, estão no Além do Brilho.

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