Polimento no Brasil x Japão: boina de lã de lado ou chapada, e por que isso muda tudo
Boina trançada ou penteada, rotativa de lado ou chapada, a zona do meio-dia às 4: o que mostrei para um polidor que trabalha no Japão.
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Recebi no estúdio o Japa, um polidor brasileiro que trabalha no Japão. Lá ele usa praticamente só boina de 5 e 6 polegadas, sempre chapada. Aqui a gente vive de boina de lã de 8 polegadas na rotativa. Em vez de discutir qual é o certo, pegamos um capô e testamos lado a lado.
O que saiu dali vale para qualquer pessoa que pole carro no Brasil, e explica um monte de vídeo bonito de rotativa que, na prática, não faz sentido nenhum.
Boina trançada marca mais, boina penteada marca menos
A maioria das boinas de lã fabricadas aqui é trançada. Ela corta mais e marca mais. A boina da 3M, por exemplo, é penteada: a lã é lisa e, por isso, marca menos.
Eu demorei para acreditar nisso. Há uns 8 anos um amigo me mostrou a diferença e eu achava que boina de lã era tudo igual. Testei uma e outra e mudei de ideia. Para também ver que a gente aprende com os outros.
Como escolher:
- Verniz muito duro, pintura original difícil de cortar: a trançada te ajuda a ser mais extremo. Em troca, você vai caprichar mais no refino e no lustro.
- Uso do dia a dia: eu trabalho muito com a branca (mais agressiva) e a amarela (lã mais macia, corta quase igual e deixa menos marca).
- Lixamento até 3000: vá direto na amarela. Com a branca, você volta a deixar marca como se tivesse lixado com uma lixa mais grossa. No estúdio, quem lixa até 3000 já parte direto para a amarela.
De lado corta, chapada acaba
Esse é o ponto principal do vídeo. A boina de 8 polegadas pode trabalhar de dois jeitos:
- De lado (inclinada): a boina entra e sai da pintura. É onde ela tem mais agressividade. Corta mais rápido, mas enche a peça de holograma.
- Chapada (reta): dá acabamento e diminui o holograma que você criou cortando.
Em nenhum dos dois casos você precisa pressionar. É sempre o peso da própria máquina.
E aí vem o mito. Tem muita gente fazendo o famoso “ataca e volta, ataca e volta” para a câmera, inclinando e chapando sem parar, para mostrar que sabe usar rotativa. Isso não tem lógica. Você está sendo agressivo e desfazendo a agressividade no mesmo movimento. É como fazer corte, refino, corte, refino na mesma peça.
O processo que faz sentido:
- Corta a peça inteira de lado, até tirar o que você queria tirar.
- Depois chapa para reduzir o holograma e não deixar tanta marca para a roto orbital.
- Acabamento com a roto orbital e boina de espuma.
Se o carro está muito arranhado, eu pego só a boina de lado e corto o carro todo. Fica cheio de holograma, eu sei. Dou um ar, limpo e venho com a roto orbital chapada tirando o holograma. É muito mais rápido do que ficar duas horas cortando com roto orbital.
Meio-dia às 4: como trabalhar perto do friso sem pelar
Com a boina de lado, imagine um relógio no prato. A parte que trabalha é a do meio-dia às 4 horas, onde a boina está empurrando para fora da borda.
- Perto de friso, quina ou vinco, posicione a máquina para que essa zona trabalhe virada para fora da borda. Aí você chega no friso e nada acontece.
- Se trabalhar do lado contrário, a boina bate na quina e você corre o risco de pelar o verniz.
- Na parte errada, se você firmar, a máquina dá um coice para cima.
O Japa, acostumado a trabalhar chapado, entendeu a diferença na primeira peça: com a boina de 8 de lado, ela corta bem mais rápido e fica mais leve de conduzir. Em parte reta, chapado funciona. Mas em quina e borda, chapada com boina grande não dá certo.
Outro cuidado: boina nova trabalha bem chapada. Boina gasta, chapada, pode deixar o parafuso do prato perto da pintura. Algumas boinas da 3M têm um limitador vermelho: quando ele começa a aparecer, a boina vai para o lixo.
Boina saturada gera pó, não o produto
Muita gente reclama que a boina de lã suja o carro inteiro. Na maioria das vezes, é a boina saturada de abrasivo seco. A cada peça cortada, dê um ar comprimido na boina. O carro suja bem menos.
Também conta a rotação e a lubrificação do produto:
- Massa de corte de repintura: trabalhei na faixa de 1200 a 1300 rpm, com a boina de lado.
- Composto mais lubrificado: baixei para perto de 1000 rpm. Se subir muito, gera pó.
- Na rotativa de bateria, 1000 rpm parece uns 800 de uma elétrica. Com uma bateria eu corto um capô inteiro. Com duas baterias revezando, você não para.
O Japa trabalha com a peça bem mais quente do que eu. Lá ele chega em 35, 40 graus e considera que cortou. Aqui eu evito temperatura alta, porque muito produto seca rápido demais e começa a soltar pó. Cada um adapta ao produto que tem na mão.
Lá no Japão eu chego nessa temperatura. Normalmente chega 40. — Japa, polidor no Japão
Outro detalhe: com produto na boina de espuma, eu prefiro colocar na boina. Com algumas linhas de produto, quando o corte foi bem feito, dá para ir do refino ao lustro aproveitando a mesma lubrificação, sem limpar a peça entre as etapas.
Lã e espuma no pacote premium: o tempo de cada um
No meu pacote premium, o carro passa pelos dois processos. Em números do vídeo:
- Corte com boina de lã: um carro como aquele eu corto em cerca de 1 hora, tirando uns 80% dos arranhões mais profundos.
- Refino com espuma na roto orbital: umas 2 horas, porque é onde eu tiro bem o holograma.
- Só roto orbital do início ao fim: cortar e refinar levaria meio dia.
Por isso eu prefiro sujar o carro de pó e cortar rápido, depois lavar, passar a espuma e aplicar o vitrificador. Mas isso depende do projeto. Num carro judiado, vale lã e espuma. Num carro zero, é roto orbital, boina de espuma e um produto intermediário, sem lã. O remédio e o veneno, a diferença é a dosagem.
O atalho da funilaria que volta depois da lavagem
Sabe o que muita funilaria e pintura faz? Corta com lã, enche o capô de holograma e passa cera. Na entrega o carro está perfeito. Depois de três, quatro lavagens, a cera sai e todo o holograma volta. Não estou falando de estética, estou falando de quem pula o acabamento.
Se você vai cortar com lã, tem que acabar. Senão o cliente descobre na terceira lavagem.
Tirar risco é arriscado
Eu tenho uma frase: tirar risco é arriscado. Você tenta tirar um risco que o cliente nem viu, insiste, abre o verniz no meio do capô e agora vai ter que pintar o capô inteiro.
Por isso eu faço melhor de três:
- Primeiro processo de polimento.
- Ficou em dúvida, um segundo.
- No terceiro, só uma esfregada de boina. Se não saiu, eu não insisto.
E micropintura, para mim, serve para ganhar o cliente, como cortesia. Uma cliente não quis pintar a porta inteira por causa de um arranhão. Fizemos a micropintura, lixamos, polimos e entregamos como cortesia. No ângulo normal ela não vê nada; se abaixar e olhar de perto, vê o arranhão coberto com a cor do carro. Isso é falar a verdade. O que eu não aceito é vender micropintura como milagre, com vídeo filmado no ângulo perfeito, e depois explicar para o cliente que “não funciona em todas as cores”. Quando o risco precisa de reparo de verdade, é pintura rápida bem feita, como eu ensino no Repara Fast.
O que levar deste vídeo
- Boina trançada corta e marca mais; boina penteada marca menos.
- Depois de lixar até 3000, vá de boina amarela.
- Corte a peça inteira de lado, depois chape para dar acabamento. Ataca e volta não tem lógica.
- Trabalhe do meio-dia às 4 perto de frisos e quinas.
- Dê ar na boina a cada peça. Boina saturada é o que gera pó.
- Lã para cortar rápido, espuma para acabar. Lã seguida só de cera é holograma escondido.
- Tirar risco é arriscado: no máximo três tentativas.
Quer ver a rotativa em outro carro? Leia polimento com rotativa e boina de lã, por que zerar peça não dá dinheiro e o lixamento de repintura. A técnica completa de corte, refino e lustro está no Além do Brilho.



