Tour pelo estúdio: como organizo o espaço e os processos para fazer vários carros ao mesmo tempo

Da recepção à cabine: como divido o espaço, encaixo pintura e detalhamento no mesmo carro, estoco material e transformo pequenos extras em ticket.

Preço, vendas e gestãoPintura e reparo rápido

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Recebi dois alunos no estúdio para um curso presencial e, antes de pôr a mão na massa, fiz o tour completo. Não é um estúdio bonito de catálogo: o prédio era feio quando comprei, e eu fui dividindo e melhorando o que já tinha. Quase tudo que aparece no vídeo, armários, portas, bancadas, fui eu que fiz, criado a partir de um problema que eu tive.

A ideia deste post não é você copiar o meu espaço. É você ver a lógica e adaptar à sua realidade.

O que o cliente vê e o que ele não vê

A porta entre a área de estética e a de preparação e pintura fica sempre fechada. É como a cozinha de um restaurante: ninguém precisa entrar ali.

O cliente estaciona sempre no mesmo ponto e, ao descer, olha para a área de estética: dois boxes sempre organizados, um vidro que faz o espaço parecer maior e uma TV com os trabalhos rodando. Depois vamos para o escritório, tomar um café e entender o que ele precisa. Escrevi sobre essa conversa no post sobre o café que fecha negócios.

E vender verdade: quem me conhece pelo Instagram e chega aqui encontra a mesma pessoa, falando alto e com as mãos. O erro de muita estética é fazer um vídeo institucional com carro de luxo e um ator, e o cliente chegar e não encontrar nada daquilo.

Encaixe de processos: três dias, vários serviços

Nunca começo a mexer no carro com o cliente ali. Ele vai embora, e aí começa o processo.

Exemplo: dois para-choques para pintar, mais detalhamento.

  • Dia 1: tiro os para-choques e o preparador já começa a trabalhar neles. Enquanto isso, a equipe lava e detalha o carro sem para-choque.
  • Dia 2: eu pinto os para-choques.
  • Dia 3: espeto os para-choques, carro pronto.

São dois processos ao mesmo tempo. E como o carro fica três dias, dá para oferecer mais coisas. Se o cliente compra película, aviso o instalador e combino com a equipe: não façam o acabamento interno antes da película, porque a instalação suja por dentro. Deixa pronto por fora, e o acabamento interno vem depois.

Enquanto esse carro espera para-choque e película, eu estou fazendo outro. Se você fizer um serviço por vez e só depois começar o próximo, um carro leva três dias e você deixa de atender mais três ou quatro. Agendamento e encaixe de processo é o que faz o estúdio produzir.

A banquinha da “bagunça organizada”: onde mora o ticket extra

Num canto eu tenho uma banca de apoio que dá muito dinheiro:

  • Grampos de todo tipo. Compro de blindadora uma caixa cheia de grampos originais: quando elas blindam, colam as laterais de porta e os grampos sobram. Quebrou um grampo ao tirar a lateral para higienizar, tenho reposição.
  • Parafusos autobrocantes, presilhas, fusíveis.
  • Lâmpadas. Tirei o para-choque e o farolete está queimado? Aviso o cliente e troco.
  • Sensor de estacionamento. Se o para-choque já está fora para pintar, por que não oferecer? Fura, instala, pinta junto.
  • Carpete e espuma para eliminar barulho de lateral de porta e fazer chicote de fio.
  • Ferro de solda, ferramentas de reparo de plástico e grampos de pressão para colar um canto de para-choque.
  • Um scanner simples, para apagar uma luz de airbag que acendeu depois de desmontar algo.
  • Promotor de adesão para dupla face, que faz o friso colar de verdade.

É como a oficina mecânica: ela não ganha dinheiro trocando óleo, ganha no filtro, no anel, na fitinha do limpa-freio. E se você viu a luz de freio queimada e não trocou nem avisou, não adianta dizer depois que viu. Mande foto ou vídeo para o cliente de cada coisa que você resolveu. É assim que ele percebe o valor.

O estúdio multiuso

Um dos boxes faz de tudo: polimento, pintura de roda, de pinça, até pintura de peça. Coloquei um exaustor comum, sem filtro, para quando preciso pintar ali sem jogar névoa para o resto do estúdio. Tem ar comprimido com filtro de água, um elevador que sobe uns 90 cm e iluminação para os acabamentos.

Já fizemos um projeto inteiro de SUV zero nesse box, sem tirar o carro do lugar: teto preto, rodas, pinças, grade, película. Num carro zero, prefiro não ficar manobrando sem para-choque e sem sensor.

Ali também ficam as politrizes e o material de higienização: duas extratoras, máquina a vapor, aspirador, microfibras em gavetas. E pouco produto, porque o processo já está definido. Contei como monto os kits no post sobre os 3 setups de polimento.

Um detalhe que eu repito para a equipe: trabalhar sentado e com o carro no elevador é inteligência, não preguiça. Sentar no chão para polir destrói a lombar.

A parte suja: lavagem e preparação

Do outro lado da porta fica a lavagem, a preparação e a cabine.

Lavagem antes da cabine é diferente de lavagem de detalhamento. Antes de pintar, o carro sai da preparação e é lavado só com detergente de lavar louça, para tirar poeira e gordura. Tenho uma espuma separada só para isso. Lavagem com produto automotivo é depois da pintura, no detalhamento. Não misture as duas coisas.

A área de preparação é suja por natureza. Para a poeira não descer para o resto do estúdio, coloquei:

  • Lonas fechando o canto da preparação. Se você tem um espaço só, duas lonas num canto já criam uma área de preparação.
  • Dois exaustores e ventiladores empurrando o ar para eles, e não para o resto do estúdio.
  • Iluminação lateral para o preparador enxergar defeito.
  • Luz indicadora nos exaustores, no compressor e na lavadora: já voltei de casa para desligar coisa que ficou ligada.

E eu não pego mais colisão pesada. Pego para-lama, porta, para-choque, um risco de guidom de bicicleta numa lateral. Prepara e aplica primer no primeiro dia, lixa e pinta no segundo, lixa e pole no terceiro. É reparo rápido. Para os amassados leves, uso a repuxadeira elétrica.

Estoque: compre quando entra dinheiro

Esta é uma técnica que aprendi com a vida. Quando o mês é bom, eu estoco material. Primer, verniz, catalisador, lixa, fita, desengraxante: tudo é universal e não estraga fechado por um bom tempo. Assim, quando vem um mês fraco, não preciso comprar nada. O único custo variável por carro é a tinta da cor.

Em um mês ruim, entra um SUV para pintar uma lateral e dois para-choques. Sem estoque, eu teria que comprar tudo. Com estoque, gasto só a tinta, e esse serviço salva a semana.

Algumas regras do meu estoque:

  • Lixa e fita por caixa. Abriu uma caixa, entrou dinheiro, compra outra e coloca embaixo.
  • Verniz e catalisador em litro, comprados “casados”. Como não tenho alto volume, lata grande aberta oxida e pode amarelar ou dar problema. Thinner também em litro: as latas vazias viram copo de catálise.
  • Sobra de tinta separada e identificada com a plaquinha de teste. Cliente fiel que sempre volta com o mesmo carro já tem a cor guardada. E outro carro da mesma cor pode aproveitar, depois de comparar a plaquinha com o carro no sol.
  • Tinta velha vira base. Depois de uns meses aberta, uso para a base de cobertura, sempre mais clara que a cor final.

A cabine: construída com os erros

A cabine foi refeita com o que deu errado. No início ela era no sentido do comprimento e eu tinha que manobrar outros carros para tirar um. Mudei a posição.

  • Entrada de ar da rua e filtro de cabine na saída. Compro o filtro em rolo e construí a boca da exaustão na medida dele, para não desperdiçar. Troco a cada 15 dias a um mês, dependendo do volume. Um termostato no motor do exaustor desarma quando o filtro satura, e eu sei que é hora de trocar.
  • Forro novo com lona por cima e espuma expansiva nos cantos, porque o forro velho estava soltando sujeirinha na pintura.
  • Luzes laterais posicionadas para gerar reflexo e eu enxergar a pintura, e luminárias que aguentam ser lavadas.
  • Antes de pintar, lavo paredes e chão com espuma e detergente. A espuma demora a secar e segura a poeira enquanto eu pinto.
  • Macacão sempre. A maior parte da sujeira vem da pistola e da roupa: a eletrostática da camiseta puxa poeira para a peça. E o macacão me deixa tirar e atender cliente sem estar sujo.
  • Arames para pendurar retrovisor e amarrar peças. Peça solta que cai com o ar é trabalho perdido.
  • Pistolas separadas: uma para verniz, uma para metálica, uma para branco, uma para preto, uma para fundo. Não precisa comprar tudo de uma vez. Algumas eu tenho há quase 8 anos.

Não tem cabine? Dá para adaptar: prepare durante o dia, deixe para pintar no fim do expediente, coloque capa nos outros carros, pinte as peças juntas e dê o verniz em todas de uma vez. Mas a névoa precisa sair de algum jeito: exaustor com filtro, ou o antigo sistema de exaustão passando por um tambor com água, que segura a tinta. Ter a nota fiscal do filtro e do recolhimento de resíduos químicos também conta. Não basta fazer certo, é bom poder provar que faz. Para licença e alvará, consulte as regras da sua cidade: muitas vezes uma atividade de estética com reparo rápido se enquadra diferente de uma funilaria tradicional.

Por que eu sei fazer de tudo

Em 30 anos, aprendi muita coisa porque o chapeador não veio, o eletricista não veio, o cara do scanner sabia menos que eu. Trabalhei anos com som automotivo, então instalo multimídia, câmera de ré, amplificador. E aprendi a pintar com as duas mãos quando precisei trabalhar com um braço imobilizado.

O que eu quero dizer com isso: tenha uma base. Com base, você pesquisa uma dica na internet e resolve. Sem base, pode ter a melhor ferramenta do mundo que não adianta.

O que levar deste vídeo

  • Mostre ao cliente a área bonita; mantenha a área suja fechada.
  • Venda a verdade: o cliente tem que encontrar o que viu no Instagram.
  • Encaixe processos: enquanto uma peça é preparada, o carro é detalhado.
  • Película antes do acabamento interno.
  • Tenha uma banca de apoio com grampos, lâmpadas e sensores. Os extras aumentam o ticket.
  • Lavagem antes da cabine é com detergente de louça; detalhamento é depois.
  • Estoque material em mês bom e compre verniz em litro.
  • Guarde a sobra de tinta identificada.
  • Na cabine, macacão, pistolas separadas e tudo lavado antes de pintar.

A organização do espaço para pintura rápida, mesmo sem cabine, faz parte do Repara Fast. Veja também como um aluno montou isso num estúdio pequeno.

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